O Ser Humano é Objeto Quebrado - Fichamento: Animação Cultural, de Vilém Flusser
Em seu texto, Flusser ressalta como o ser humano, num de seus mitos de criação fundamentais da sociedade ocidental (em que Deus teria criado o homem a partir do barro), teria se colocado como descendente de uma matéria prima objeto. Bem, acredito que este raciocínio possa ser aprofundao um pouco mais. Em diferentes culturas a humanidade se coloca como ser separado da natureza. Não no sentido de ser completamente alheia à essa, desconexa, mas sim em ser diferente do "resto". Nas classificações biológicas pré-científicas dos gregos, por exemplo, os seres humanos são colocados como seres vivos separados dos animais e plantas. Em mitos de criação do Oriente Médico, Leste Asiático, e mesmo Américas, o homem é, quase sempre, colocado como figura integrante do mundo, mas com papel e participação distintos dos outros entes. Em diversas culturas o natural é tido como misterioso, irracional, subjetivo, enquanto o homem (e sim, nesse contexto eu digo o homem, já que essas mesmas culturas costumam aferir à figura feminina uma maior conexão com o mundo natural e a irracionalidade) é sua antítese: objetivo, racional, é aquele que traz ordem ao caos do mundo e que em certo nível o controla. Essa distinção se estende também às mitologias criadas pelas civilizações humanas, em que figuras de animais misturados, como no caso de esfinges e quimeras, criados, como dragões, ou simplesmente extrapolados, como serpentes e lobos gigantes, embora sejam todos figuras animalescas, e por tanto integrantes da natureza, se distinguem do resto, despertando um fascínio em quem os criou. Contudo, indo para a sociedade contemporânea, o ser humano agora, mais do que nunca, se vê repleto de objetos. Alguns destes autônomos, "animados", ainda que programados, capazes de realizar ações antes só realizadas por pessoas. O primeiro golpe nesta objetividade humana foi a segunda revolução industrial, em que a capacidade de controlar e moldar o mundo diretamente, com as próprias mãos ou com o uso de ferramentas diretas, de racional e intencionalmente criar algo, foi tolhida dos trabalhadores, alienados de seu trabalho. Ainda assim, estas pessoas estavam trabalhando com alguma ordem, tinham regras e movimentos precisos, executando tarefas não muito diferentes de uma máquina, objetivas. Entretanto, com as automações nas fábricas, agora o ser humano não é mais necessário, ou o é em muito menor quantidade e nível de esforço, pra criar os bens que consome. Nós nos voltamos então ao mundo intelectual, com mais empregos no setor terciário sendo ocupados (principalmente nos países do norte global). Ainda assim, mesmo estas tarefas intelectuais estão sendo tomadas de nós, com Inteligências Artificiais realizando tarefas em empresas com muito mais eficiência do que qualquer pessoa. Com o advento de novas tecnologias, fazendo cada vez maior parte das tarefas humanas nosso caráter objeto perde cada vez mais seu valor. Por isso o ser humano hoje se vê como uma espécie de objeto quebrado, que já não sabe mais seu valor. Talvez devêssemos buscar valorizar outro aspecto muito importante de nossa existência: a subjetividade. Num mundo cercado por mecanismos, a arte, no sentido mais amplo possível; a filosofia e o pensamento crítico são aquilo que nos distingue dessa "natureza artificial" que nós mesmos criamos.
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